O Caso de Antropofagia em Pombal na Grande Seca de 1877-1879

José Tavares de Araújo Neto

 

A Grande Seca de 1877-1879 foi um desastre sem precedentes no Brasil, ceifando entre 400.000 e 500.000 vidas, principalmente no Nordeste, devido à fome, sede e doenças relacionadas, como a varíola. Este evento catastrófico, que afetou cerca de 5% da população do Império na época, foi a maior seca da história do país. Conhecida como a “seca dos dois setes”, a calamidade devastou o sertão nordestino, reduzindo milhares de famílias à fome extrema e ao desespero. Foi nesse contexto de miséria e desespero que ocorreu, em Pombal (PB), um dos episódios mais sombrios da história sertaneja: um caso de antropofagia que deixou marcas indeléveis na memória coletiva da região.

De acordo com registros da época, no dia 27 de março de 1879, a retirante Donária dos Anjos, natural de Piancó, encontrou a menina Maria, de apenas quatro anos, nas proximidades da Casa de Mercado de Pombal, onde atualmente funciona o Pombal Ideal Club. Com um gesto de aparente carinho, Donária convidou a criança para ir com ela até o local onde estava arranchada, um frondoso pé de oiticica situado perto do cemitério. Ali, Donária cometeu um ato de brutalidade inimaginável: matou a menina por sufocamento e decapitação, enterrou a cabeça debaixo da oiticica e cozinhou parte da carne do corpo para comer. O restante do corpo foi abandonado e devorado por cães.

O crime chocou a cidade e logo foi registrado pela imprensa. O jornal O Publicador, de 24 de abril de 1879, noticiou a tragédia em detalhes, relatando a confissão da acusada. Pouco depois, o Jornal do Recife (16 de maio de 1879) publicou uma carta escrita em Pombal por Antônio Vieira de Torres Bandeira, juiz municipal suplente em exercício na cidade. Nela, depois de descrever o estado de miséria local, ele declarou:

“Hoje pronunciei uma mulher que há poucos dias matou uma menina para comer, e ainda comeu parte da mesma.”

Segundo o portador da carta, a ré teria confessado em interrogatório que, desde o começo da seca, já havia matado e comido catorze crianças para sobreviver. O Correio Paulistano, de São Paulo (25 de maio de 1879), reproduziu a mesma notícia, ampliando o alcance nacional do caso.

A gravidade do episódio também ficou registrada de forma oficial em documento cartorial. O registro de óbito da menina Maria Branca, datado de 27 de março de 1879, declara:

“Aos vinte e sete de março de mil oitocentos e setenta e nove neste cemitério de Nossa Senhora do Bom Sucesso desta cidade de Pombal sepultou-se os restos do anjo de nome Maria, branca, com idade de 4 anos, filha legítima de Domingos Alves Pinheiro e Cândida Maria da Conceição, moradores nesta freguesia. Morreu assassinada, por Donária dos Anjos, natural de Piancó, tendo sido encontrada devorando o cadáver da mesma criança, e sendo seus restos por mim encontrados e envoltos em hábito branco e, para constar, fiz esse assento que eu assino que ficará para eterna memória”.

O documento confirma não apenas o assassinato, mas também a brutalidade da cena encontrada pelas autoridades.

Os autos processuais relatam que Donária tinha 18 anos, era retirante da seca, encontrava-se debilitada e afirmou ter cometido o crime “oprimida pela grande fome”. Na denúncia formal, o promotor público da Comarca de Pombal descreveu o crime nos seguintes termos:

“O promotor público da Comarca de Pombal, usando da faculdade que lhe confere a Lei, vem perante V. Sa., denunciar a Donária dos Anjos, pelo fato que passa a expor: Chegando a denunciada, com sua vítima, em seu antro, matou-a por meio de sufocação, decepou-lhe a cabeça, reduziu o corpo a diversos pedaços de carne, cozinhou parte destes, que comeu, guardou outros em uma moita de onde foram devorados pelos cães, e num riacho que passa a pouca distância do Cemitério, enterrou, à sombra de uma oiticica, a cabeça de sua desditosa vítima, que foi exumada.”

O processo foi conduzido pelo Dr. Antônio Muniz Sodré de Aragão, juiz de direito da Comarca. Após receber a denúncia do promotor e a confissão de Donária dos Anjos, ele procedeu ao interrogatório da acusada, conforme determinava o Código Criminal da época.

No interrogatório, Donária declarou:

“que era natural do termo de Piancó e ali residia, mas que se achava nesta cidade [Pombal], quando foi presa, para onde se tinha retirada por causa da seca. Respondeu ter 18 anos e que cometeu o crime oprimida pela grande fome que a afligia, e que se achava arrependida de o ter praticado”.

Além disso, o juiz enviou um ofício à Câmara Municipal de Pombal, relatando o estado precário da população local, “atemorizada pela fome”, e cobrando do poder público providências que pudessem amenizar a situação.

Após o processo, Donária foi recolhida à Cadeia de Pombal, onde permaneceu encarcerada por um longo período. A história, porém, não registra a data exata de sua libertação.

O episódio ultrapassou os limites policiais e entrou na literatura. José Américo de Almeida, em A Paraíba e seus problemas e em A Bagaceira, faz referência ao caso, retratando-o como símbolo da degradação humana diante da fome extrema. Poetas populares, como Nicandro Nunes da Costa e Bernardo Nogueira, também registraram o crime em versos.

O corpo da pequena Maria foi sepultado no cemitério local, mas no lugar onde seus restos foram encontrados, próximo ao antigo riacho e à frondosa oiticica onde Donária escondera a cabeça da vítima, os moradores da cidade ergueram uma cruz de devoção. Esse marco, conhecido como A Cruz da Menina, transformou-se em ponto de religiosidade popular. Com o tempo, os fiéis passaram a depositar pedras, flores e velas no local, associando o sacrifício da menina a um martírio sagrado. Ainda nos anos finais da década de 1870, procissões noturnas seguiram até ali, pedindo chuva e intercessão divina.

Assim, o espaço foi incorporado à fé do povo pombalense como lugar sagrado, onde muitos acreditavam receber graças. Em 1948, a devoção ganhou forma mais permanente, quando foi erguido um pedestal de alvenaria com uma cruz de madeira no alto, substituindo o amontoado de pedras que, desde 1879, lembrava o drama vivido. Até hoje, a Cruz da Menina é visitada como símbolo de fé e memória coletiva.

Assim, o caso de Donária dos Anjos permanece como um símbolo trágico da seca de 1877/1879: expressão máxima do desespero humano frente à fome, mas também origem de um culto popular em torno da inocente vítima, a menina Maria, cuja memória se eternizou no lugar sagrado da Cruz da Menina, em Pombal.

 

Fontes

  • Jornal do Recife, 16 de maio de 1879.
  • Correio Paulistano, 25 de maio de 1879.
  • O Publicador, 24 de abril de 1879.
  • Registro de óbito de Maria Branca, Cemitério de Nossa Senhora do Bom Sucesso, Pombal, 27 de março de 1879.
  • ALMEIDA, José Américo de. A Paraíba e seus problemas.
  • ALMEIDA, José Américo de. A Bagaceira.
  • SOUSA, Verneck Abrantes de. A Cruz da Menina de Pombal.

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