Padre Nobre, o Vigário Revolucionário

José Tavares de Araújo Neto

José Ferreira Nobre, mais conhecido como Padre Nobre, nasceu em Pombal, na Paraíba, sendo filho de José Ferreira de Sousa, Capitão Zé da Formiga, e de Maria Nobre da Conceição, também chamada de Rosa da Formiga, proprietários da Fazenda Formiga. O casal é reconhecido como patriarcas da família Ferreira Nobre, que, adotando o nome da propriedade como sobrenome, deu origem à tradicional Família Formiga. A partir de Pombal, essa família espalhou-se por várias regiões do Brasil, crescendo e multiplicando-se “como um verdadeiro formigueiro”.
O Capitão Zé da Formiga e Dona Rosa Formiga formaram uma das famílias mais influentes e representativas do sertão nordeste, notadamente em Pombal (PB) e região do Cariri cearense, no século XIX. Sua descendência reflete não apenas a projeção política e militar da família, mas também seu engajamento nos movimentos históricos que marcaram o Brasil da época, como a Revolução Pernambucana de 1817 e a organização administrativa do nascente Estado imperial. Entre seus filhos, contam-se:
João Thomaz Nobre de Sousa Formiga — Coronel da Guarda Nacional, Juiz Ordinário em Pombal (1820 e 1827), casado com Joana Pulchéria Correia Arnaud, filha do Sargento-mor José Alexandre Correia Arnaud, de Missão Velha, Ceará.
Vicente José Viriato Formiga — Capitão, estabelecido em Milagres Ceará, pai dos célebres cangaceiros conhecidos como os Viriatos.
Joaquim Ferreira Nobre (Major Quinca Formiga) — Major, também chamado Joaquim José Rosa Ferreira Nobre.
Miguel Narciso Nobre — casado com Córdula Florentina; falecido antes de 1854.
Manoel Ferreira de Sousa — Coronel, preso em 1817 junto ao Padre Nobre; Juiz Ordinário e Deputado Provincial na Paraíba.
Francisco Ferreira de Sousa — Capitão, casado com Maria Cândida da Conceição; avô do jornalista Argemiro de Sousa.
Maria Joaquina Benedita Nobre (Mariinha Formiga) — casada com o português Bernardino José da Rocha; deixou testamento em 1858.
Antônia Francisca Benedita Nobre — faleceu solteira em 1873; deixou testamento.
Inácio Jacinto Ferreira Nobre — casado com Joana Francisca Benedita.
Quitéria Delfina Benedicta Nobre — casada com Joaquim Antônio Bezerra de Menezes, último Capitão-mor do Crato (CE).

Antônio Ferreira de Sousa — Capitão de Cavalaria, proprietário do sítio São Domingos; também participante ativo do movimento revolucionário de 1817.

Cabe destacar que deste ramo descendem José Tavares de Araújo Neto, autor deste trabalho literário, e outros membros da família que preservam a memória histórica do sertão paraibano.
Padre José Ferreira Nobre — vigário de Pombal, revolucionário de 1817 e deputado constituinte de 1823.

Padre Nobre recebeu sua formação sacerdotal no Seminário de Olinda, em Pernambuco, instituição de grande prestígio intelectual no início do século XIX. Ali, foi aluno de João Ribeiro de Almeida e Castro, absorvendo ideais iluministas e republicanos que circulavam entre o clero progressista.

Em 1810, já ordenado, foi nomeado vigário colado da freguesia de Nossa Senhora do Bonsucesso da Vila de Pombal, função que exerceu até pelo menos 1817. Respeitado por sua paróquia, tornou-se não apenas guia espiritual, mas também líder político e social, difusor de ideias de liberdade, democracia e independência nacional.

Padre Nobre destacou-se como um dos líderes sertanejos da Revolução Pernambucana de 1817, movimento republicano e liberal que mobilizou o Nordeste. Na Paraíba, cidades como Pombal e Sousa foram influenciadas por clérigos revolucionários, entre eles o Padre Nobre e o Padre Luiz José Correia de Sá.

Com a derrota do movimento, foi preso em 30 de junho de 1817, junto a outros pombalenses. Muitos foram levados acorrentados, a pé ou montados em burros, até os cárceres de Pernambuco e Bahia. Padre Nobre ficou registrado como prisioneiro nº 170 na Bahia, onde permaneceu até 1820. Seus irmãos também foram encarcerados, acusados de rebelião, incluindo o Capitão Antônio Ferreira de Sousa, que se destacou como participante ativo do movimento.

O processo que enfrentou tinha 27 páginas de defesa, nas quais buscava demonstrar sua inocência. Sua libertação ocorreu graças ao Decreto Régio de 6 de fevereiro de 1818, que concedia anistia aos implicados na insurreição, excetuando crimes graves como blasfêmia, homicídio ou violência contra autoridades.

Mesmo após a prisão, o prestígio do Padre Nobre manteve-se intacto. Em 20 de novembro de 1822, foi eleito deputado pela Província da Paraíba para a Assembleia Constituinte do Império do Brasil, instalada em 1823.

Assim, representou sua província na primeira Assembleia Nacional Constituinte (3 de maio a 11 de novembro de 1823), com a missão de elaborar a primeira Constituição do Brasil. Entretanto, o trabalho da Constituinte foi interrompido pelo imperador D. Pedro I, que dissolveu a Casa e outorgou a Constituição de 1824.

Embora registros indiquem que ainda estava vivo em 1824, documentos do Cartório do 1º Ofício de Pombal registram a abertura do inventário de seus bens nesse mesmo ano, sugerindo que tenha falecido pouco depois, certamente antes de 1840.

Padre José Ferreira Nobre deixou uma marca indelével na memória de Pombal e do sertão nordestino. Reverenciado como chefe político local e defensor intransigente da república, tornou-se símbolo da coragem sertaneja diante do absolutismo.

No hino oficial de Pombal, sua figura é celebrada com versos que perpetuam sua resistência:

“Padre Nobre, oh! guerreiro valente!…
Foste preso, amarrado e escoltado
Pela estrada como um penitente
Mas teu nome jamais será olvidado.”

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